JÚRI POPULAR RECONHECE ESTUPRO, FEMINICÍDIO E FRAUDE PROCESSUAL NO CASO QUE CHOCOU SANTA CATARINA

Leitura da sentença no Tribunal do Júri da Capital encerrou quase 20 horas de julgamento do primeiro acusado pela morte de Ana Beatriz Schelter.

Após quase dez anos de espera por justiça, o primeiro dos três acusados pela morte da adolescente Ana Beatriz Schelter foi condenado pelo Tribunal do Júri da Capital a 58 anos e nove meses de prisão em regime fechado, além de nove meses e 26 dias de detenção em regime semiaberto. O réu, de 58 anos, foi apontado pelo Ministério Público de Santa Catarina como principal autor do crime ocorrido em março de 2016, em Rio do Sul.

A sentença acolheu integralmente a tese do Ministério Público, que sustentou a prática dos crimes de estupro de vulnerável, homicídio qualificado e fraude processual. O julgamento começou na manhã de terça-feira (12) e terminou na madrugada desta quarta-feira (13), no Fórum da Capital, em Florianópolis. O acusado teve negado o direito de recorrer em liberdade.

Crime brutal e cenário forjado

Os jurados reconheceram que o réu agiu em concurso de pessoas, mediante emboscada e abuso da relação de confiança mantida com a vítima. A condenação também considerou as qualificadoras de feminicídio, pelo fato de Ana Beatriz ter menos de 14 anos, e de homicídio cometido por asfixia e com recurso que dificultou a defesa da adolescente.

Além disso, o Conselho de Sentença entendeu que houve tentativa deliberada de alterar a cena do crime para simular um suicídio por enforcamento, hipótese descartada pela perícia ainda durante as investigações.

Promotores destacam “justiça construída com provas técnicas”

A acusação foi conduzida pela Promotora de Justiça Lanna Gabriela Bruning Simoni, integrante do Grupo de Atuação Especial do Tribunal do Júri (GEJURI), e pelo Promotor de Justiça Jonnathan Augustus Kuhnen.

Durante os debates, Lanna Gabriela citou a escritora Clarice Lispector para lembrar os sonhos interrompidos da adolescente.

“É um dos casos mais chocantes e desumanos que eu já vi. Esse processo pede justiça. São dez anos de espera e hoje aqui vai ser feita justiça com provas técnicas. A família quer justiça não por vingança, mas por responsabilidade.”

Já o promotor Jonnathan Augustus Kuhnen destacou o impacto humano do julgamento:

“A justiça tem mãe, tem filhos e a certeza do julgamento de hoje. A Ana não está mais aqui. Muitas Anas desse mundo não desejam o fim que ela teve.”

Ao final da sessão, o pai da vítima, Ismael Schelter, afirmou que a condenação representa a concretização da justiça aguardada pela família desde 2016.

Família acompanha julgamento e cobra resposta do Estado

Pais, familiares e amigos de Ana Beatriz acompanharam toda a sessão do júri no salão do Fórum de Florianópolis. Vestindo camisetas com a foto da adolescente, os presentes permaneceram mobilizados durante todo o julgamento.

A estudante de Direito Vanessa Cristina Karling de Lima Santos, amiga da família, afirmou ter participado do ato pela repercussão e brutalidade do caso.

Relembre o caso Ana Beatriz

Ana Beatriz tinha 12 anos quando saiu de casa, no dia 2 de março de 2016, para ir ao Colégio Estadual Henrique da Silva Fontes, onde cursava o sétimo ano. A adolescente desapareceu no trajeto até a escola.

O corpo foi encontrado na manhã seguinte dentro de um contêiner às margens da BR-470, em Rio do Sul. A perícia confirmou violência sexual e morte por asfixia mediante esganadura.

Segundo o Ministério Público, o réu condenado conhecia a família da vítima, monitorava sua rotina e teria planejado o crime. As investigações também apontaram a participação de outros dois denunciados, que ainda serão julgados.

Próximos julgamentos já têm data marcada

Os outros dois réus denunciados no processo serão julgados pelo Tribunal do Júri da Capital em sessão prevista para 25 de junho de 2026. A transferência do julgamento de Rio do Sul para Florianópolis foi autorizada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina no início deste ano.

As investigações foram conduzidas no âmbito da Operação Fênix, coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas.

 

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