O QUE ESPERAR DO EL NIÑO EM 2026

Monitoramento da Epagri/Ciram acompanha a evolução do El Niño e seus possíveis impactos sobre o regime de chuvas, temperaturas e ocorrência de eventos extremos em Santa Catarina. =Foto: Airton Fernandes/Defesa Civil SC

Depois de meses de acompanhamento, os principais centros meteorológicos passaram a convergir para um cenário que exige atenção: o El Niño deve ganhar intensidade ao longo do segundo semestre de 2026, com previsão de atingir seu pico durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul.

Em Santa Catarina, a evolução do fenômeno é monitorada diariamente pela Epagri/Ciram, que cruza informações produzidas no Estado com dados de centros meteorológicos nacionais e internacionais.

A projeção indica um El Niño de forte intensidade nos próximos meses, com possibilidade de alcançar a categoria de muito forte durante a primavera e o verão, podendo permanecer ativo até o início de 2027.

Segundo a meteorologista Gilsânia de Souza Cruz, a evolução prevista exige atenção especial para o comportamento das chuvas e dos temporais.

“Os modelos indicam que o fenômeno será de intensidade forte nos próximos meses, atingindo intensidade muito forte durante a primavera e o verão, podendo persistir até o início de 2027.”

Primavera concentra maior preocupação

Historicamente, Santa Catarina registra alguns dos maiores acumulados de chuva do ano durante a primavera. O período também é marcado pela passagem frequente de frentes frias e pela formação de sistemas de tempestade.

Com a atuação do El Niño, essas condições podem se tornar mais frequentes ou intensas, aumentando a possibilidade de episódios de chuva persistente, temporais e eventos meteorológicos extremos.

A atenção se concentra principalmente em outubro e novembro, meses que tradicionalmente apresentam elevados volumes de precipitação no Estado.

“O maior impacto costuma ocorrer na primavera do ano em que o fenômeno se forma. Em Santa Catarina, outubro e novembro normalmente concentram os maiores volumes e a maior persistência das chuvas”, explica Gilsânia.

Além das chuvas, o fenômeno também pode interferir no comportamento das temperaturas. Uma das características esperadas é a redução da frequência e da intensidade das massas de ar frio durante o inverno e o começo da primavera.

“O comportamento das temperaturas também muda. Em geral, observamos menos frio durante o inverno e o início da primavera, enquanto os sistemas meteorológicos instáveis tornam-se mais frequentes.”

El Niño não significa impactos iguais em todo o Estado

Apesar das projeções indicarem uma influência significativa sobre o clima catarinense, os especialistas ressaltam que o fenômeno não determina, sozinho, o comportamento do tempo.

A distribuição das chuvas e das temperaturas depende também de outras oscilações atmosféricas e oceânicas. Por isso, diferentes regiões podem registrar impactos distintos, tanto em intensidade quanto em período.

Gilsânia reforça essa cautela:

“Outras oscilações atmosféricas também influenciam o comportamento do tempo. Nem sempre todo o Sul do Brasil será atingido da mesma forma e no mesmo momento.”

A ressalva é importante porque uma previsão climática de meses não significa que será possível determinar, com antecedência, exatamente onde ocorrerá cada temporal ou episódio de chuva intensa. Para isso, são necessárias previsões meteorológicas de curto prazo, atualizadas continuamente.

Como a ciência acompanha um fenômeno que dura meses

Diferentemente de uma frente fria ou de um ciclone, que podem se desenvolver e provocar mudanças significativas no tempo em poucos dias, o El Niño é um fenômeno de evolução mais lenta.

Sua formação e intensificação acontecem gradualmente, permitindo que os meteorologistas acompanhem sua trajetória durante vários meses.

Na Epagri/Ciram, esse trabalho envolve a análise permanente de uma grande quantidade de informações produzidas por instituições brasileiras e internacionais.

Entre os principais indicadores observados estão:

* temperatura da superfície do mar;
* Índice ONI (Oceanic Niño Index);
* comportamento da atmosfera;
* imagens de satélite;
* dados de observação meteorológica;
* modelos numéricos de previsão climática;
* projeções estatísticas;
* simulações produzidas por diferentes centros meteorológicos.

“Monitoramos continuamente a temperatura da superfície do mar e os indicadores atmosféricos. À medida que novas informações são atualizadas, elaboramos notas meteorológicas, previsões sazonais e, quando necessário, avisos meteorológicos para situações de curto prazo”, explica Gilsânia.

Modelos internacionais ajudam a antecipar os cenários

As previsões climáticas utilizam modelos computacionais desenvolvidos por alguns dos principais centros de pesquisa meteorológica do mundo.

Entre eles estão a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), além de instituições de pesquisa do Canadá e da Austrália.

Esses sistemas realizam milhões de cálculos para simular as interações entre atmosfera e oceanos e projetar diferentes cenários para os meses seguintes.

Os meteorologistas não analisam apenas uma projeção. Diferentes modelos são comparados e combinados, incluindo modelos estatísticos e ferramentas que utilizam inteligência artificial para reconhecer padrões semelhantes aos observados em eventos anteriores.

Essa metodologia, conhecida como ensemble, permite reunir diferentes simulações e construir uma previsão probabilística, reduzindo as incertezas naturais existentes na previsão do comportamento atmosférico.

“O objetivo é analisar dezenas de modelos diferentes para construir uma previsão probabilística. Nenhum modelo, isoladamente, consegue representar toda a complexidade da atmosfera.”

Monitoramento integrado une ciência, tecnologia e prevenção

O acompanhamento do El Niño depende da integração de informações locais e globais.

Em Santa Catarina, a Epagri/Ciram acompanha as condições meteorológicas e climáticas do Estado, enquanto instituições como a Defesa Civil e o INPE contribuem para o monitoramento e a interpretação dos cenários.

Ao mesmo tempo, centros internacionais utilizam supercomputadores para simular continuamente as interações entre oceanos e atmosfera em escala planetária.

Esse conjunto de informações permite identificar tendências climáticas com meses de antecedência e, posteriormente, transformá-las em previsões meteorológicas mais específicas à medida que os eventos se aproximam.

Da previsão de chuva ao alerta de desastre

Se a Epagri/Ciram acompanha a evolução do clima, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) trabalha com uma questão ainda mais específica: uma determinada condição meteorológica poderá provocar impactos capazes de gerar um desastre?

A instituição funciona 24 horas por dia, reunindo meteorologistas, hidrólogos, geólogos e especialistas em vulnerabilidade social.

O monitoramento alcança aproximadamente 1.300 municípios brasileiros considerados suscetíveis a desastres.

Monitoramento permanente

24 horas
de monitoramento ininterrupto

1.300 municípios
monitorados em áreas suscetíveis

Até 2 dias
de antecedência em determinadas situações

A emissão de um alerta não depende exclusivamente do volume de chuva previsto. O Cemaden avalia também o potencial de impacto daquela chuva em determinado território.

Segundo o coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, existe uma diferença fundamental entre um aviso meteorológico e um alerta de desastre.

“Um aviso informa que poderá ocorrer chuva forte. O alerta do Cemaden indica que essa chuva tem potencial para provocar enchentes, enxurradas ou deslizamentos em um determinado município.”

Para fazer essa avaliação, o centro utiliza uma extensa rede de monitoramento, formada por pluviômetros automáticos, radares meteorológicos, imagens de satélite, sensores de umidade do solo e estações hidrológicas que acompanham, em tempo real, o nível dos rios.

As informações alimentam modelos computacionais capazes de estimar o comportamento de bacias hidrográficas e encostas antes mesmo da ocorrência de um desastre.

Além da quantidade e da intensidade da chuva, os especialistas consideram características como relevo, saturação do solo, histórico de eventos extremos e grau de vulnerabilidade da população.

“Não monitoramos apenas a chuva. Avaliamos quais impactos ela pode produzir naquele território específico.”

Da análise técnica à ação das Defesas Civis

Quando o risco é confirmado, o Cemaden encaminha um documento técnico à Defesa Civil Nacional, que repassa as informações aos estados e municípios.

A partir daí, cabe às Defesas Civis locais avaliar quais medidas precisam ser adotadas, de acordo com as características de cada ocorrência.

Entre as possíveis ações estão a mobilização de equipes, abertura de abrigos, interdição de áreas de risco e emissão de orientações e alertas à população.

O diretor substituto do Cemaden, Pedro Camarinha, destaca que, embora a tecnologia seja fundamental, a decisão final envolve avaliação especializada.

“Os sistemas computacionais auxiliam a tomada de decisão, mas a emissão do alerta sempre passa pela avaliação de uma equipe multidisciplinar formada por especialistas em meteorologia, hidrologia, geodinâmica e vulnerabilidade.”

Antecedência pode fazer diferença

Dependendo das características do fenômeno, os alertas podem ser emitidos com até dois dias de antecedência.

Entretanto, nem todos os eventos permitem esse prazo. Situações de evolução rápida, como enxurradas associadas a tempestades de verão, podem exigir respostas em apenas algumas horas ou até poucos minutos.

É justamente por isso que o monitoramento não pode ser interrompido.

O El Niño funciona como um pano de fundo climático, aumentando a probabilidade de determinados padrões de chuva e temperatura ao longo de vários meses. Já a previsão meteorológica de curto prazo é responsável por indicar, com maior precisão, onde e quando uma condição adversa poderá ocorrer.

Como resume o próprio Cemaden:

“Enquanto o El Niño funciona como um pano de fundo, aumentando a probabilidade de eventos extremos ao longo de vários meses, são as previsões de curto prazo que indicam onde e quando os riscos realmente poderão se transformar em desastre. É justamente essa combinação entre ciência, tecnologia e monitoramento contínuo que permite transformar informação em prevenção e ampliar a capacidade de resposta dos órgãos públicos diante dos desafios impostos pelo clima.”

O que muda para Santa Catarina

Com a perspectiva de fortalecimento do El Niño durante a primavera e o verão, Santa Catarina entra em um período que naturalmente já exige atenção das equipes de meteorologia e Defesa Civil.

O principal ponto de preocupação é a possibilidade de chuvas mais persistentes e ocorrência de temporais, especialmente em períodos em que diferentes sistemas meteorológicos atuem simultaneamente.

A previsão climática, porém, não significa que todos os municípios terão necessariamente os mesmos volumes de chuva ou enfrentarão os mesmos tipos de ocorrência.

Por isso, o acompanhamento das atualizações meteorológicas, dos avisos e dos alertas oficiais será fundamental nos próximos meses.

Mais do que prever a chegada de um fenômeno climático, a integração entre Epagri/Ciram, Cemaden, Defesa Civil e centros de pesquisa nacionais e internacionais busca transformar dados científicos em informação capaz de antecipar riscos e orientar a população.

Em um cenário de El Niño forte ou muito forte, a combinação entre monitoramento permanente, tecnologia e resposta rápida poderá ser decisiva para reduzir impactos e ampliar a segurança das comunidades catarinenses.

(Fonte: Conteúdos Especiais-Agência Alesc)

 

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