MINISTÉRIO PÚBLICO DE SANTA CATARINA ACIONA PREFEITURA DE JARAGUÁ DO SUL POR SUPOSTO DESVIO DE RECURSOS DESTINADOS À INFÂNCIA

Prefeitura de Jaraguá do Sul, alvo de ação civil pública do Ministério Público de Santa Catarina por supostas irregularidades na destinação de recursos do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) ingressou com uma ação civil pública contra o Município de Jaraguá do Sul após identificar supostas irregularidades na destinação de recursos do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FMDCA). Segundo a Promotoria de Justiça, a administração municipal teria promovido a desvinculação indevida de receitas legalmente destinadas a políticas públicas voltadas à infância e adolescência, comprometendo o financiamento de programas e serviços essenciais.

A ação, proposta pela 7ª Promotoria de Justiça, sustenta que a medida reduziu significativamente os recursos disponíveis para projetos sociais, contrariando dispositivos constitucionais e legais que asseguram prioridade absoluta à proteção de crianças e adolescentes.

Investigação começou após denúncia de vereadores

De acordo com o processo, a investigação teve início a partir de uma representação apresentada por vereadores em 2024. Eles relataram a edição de decretos municipais que autorizavam o contingenciamento de até 30% das receitas do fundo.

Embora os atos tenham sido fundamentados em normas constitucionais que permitem a desvinculação de determinadas receitas públicas, o Ministério Público argumenta que a medida foi aplicada de forma indevida ao atingir recursos com destinação específica e protegida por legislação própria.

O promotor de Justiça Rafael Meira Luz, responsável pela ação, afirma que a prática afeta diretamente a garantia de direitos fundamentais.

“A redução dos recursos destinados ao Fundo da Infância implica diminuição concreta da capacidade de financiamento de políticas públicas essenciais, configurando violação aos direitos difusos e coletivos de crianças e adolescentes.”

Mais de R$ 3 milhões deixaram de chegar ao fundo

Conforme levantamento preliminar apresentado na ação, pelo menos R$ 3.090.247,32 deixaram de ser repassados ao FMDCA. A maior parte dos recursos seria proveniente de doações realizadas por pessoas físicas e jurídicas por meio da destinação do Imposto de Renda.

Segundo o Ministério Público, esses valores possuem finalidade específica definida em lei e não integram o patrimônio livre do Município, devendo ser integralmente aplicados em ações voltadas à proteção da infância e da adolescência.

Embora um dos decretos questionados tenha sido posteriormente revogado pela Prefeitura, a Promotoria sustenta que os prejuízos financeiros ao fundo já haviam sido consolidados.

Superávit milionário e demanda crescente por serviços sociais

Outro ponto destacado na ação é que a redução dos recursos ocorreu paralelamente à divulgação de resultados positivos nas contas públicas municipais.

Segundo o promotor, em 2025 o Município anunciou um superávit orçamentário de aproximadamente R$ 120 milhões, enquanto áreas sociais continuavam registrando filas de espera e sobrecarga nos atendimentos.

“Além do impacto direto no financiamento de políticas públicas, a ação demonstra que a prática ocorreu em paralelo à divulgação de superávits orçamentários relevantes”, destacou Rafael Meira Luz.

Tribunal de Contas apontou irregularidades

O caso também foi analisado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC), que, conforme consta nos autos, considerou irregular a inclusão de superávits financeiros na base de cálculo utilizada para a desvinculação das receitas.

O órgão de controle também alertou para o risco de desvio da finalidade de recursos legalmente vinculados a políticas públicas específicas.

Ministério Público pede restituição dos valores

Na ação judicial, o MPSC solicita o reconhecimento da ilegalidade dos decretos municipais, a proibição de novas desvinculações de recursos do FMDCA e a devolução integral dos valores retirados, acrescidos de correção monetária.

A Promotoria também requer que o Município apresente informações detalhadas para apurar o montante total não repassado ao fundo entre os anos de 2023 e 2025.

Caso a Justiça acolha os pedidos, a Prefeitura de Jaraguá do Sul deverá recompor integralmente os recursos do fundo e ficará impedida de editar novos decretos que promovam a desvinculação de receitas do FMDCA, independentemente da origem dos recursos. O descumprimento da determinação poderá resultar em multa diária de R$ 10 mil.

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