
Santa Catarina entrou em uma nova fase de atenção climática com a confirmação do El Niño e a intensificação do aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno, que interfere na circulação atmosférica em escala global, deve ganhar força nos próximos meses e aumentar a possibilidade de chuva acima da média e de eventos meteorológicos extremos no Sul do Brasil.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou o início do El Niño em junho de 2026. Naquele momento, o fenômeno ainda apresentava intensidade fraca, mas as projeções já apontavam para uma evolução significativa. Em julho, uma nova atualização elevou para 81% a probabilidade de o episódio alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão no Hemisfério Sul. (Defesa Civil SC)
O aquecimento das águas do Pacífico também avançou rapidamente: a anomalia passou de +0,7°C em junho para +1,2°C em julho, sinalizando a intensificação gradual do fenômeno. (Defesa Civil SC)
Por que o El Niño preocupa?
O El Niño não é simplesmente um aumento da temperatura do oceano. Trata-se de um fenômeno resultante da interação entre o oceano e a atmosfera, capaz de modificar os ventos, a circulação atmosférica e o comportamento dos sistemas meteorológicos.
No Sul do Brasil, um dos efeitos mais conhecidos é o aumento da frequência e da intensidade das chuvas. Em Santa Catarina, esse padrão pode favorecer episódios de precipitação persistente e volumosa, especialmente quando combinado com frentes frias, áreas de baixa pressão e outros sistemas atmosféricos.
O resultado é uma maior possibilidade de ocorrência de temporais, alagamentos, enxurradas, inundações e deslizamentos, principalmente em áreas que já apresentam maior vulnerabilidade. (Defesa Civil SC)
A Defesa Civil estadual, entretanto, faz uma ressalva importante: não é possível atribuir automaticamente cada chuva intensa ao El Niño. A intensidade dos impactos depende da combinação entre as condições atmosféricas de cada episódio e as características e vulnerabilidades existentes em cada região. (Defesa Civil SC)
Sul do Brasil tende a receber mais chuva
Os efeitos do fenômeno não são iguais em todas as regiões brasileiras.
De maneira geral, o El Niño costuma favorecer maior frequência de chuvas no Sul do país, enquanto pode contribuir para períodos mais secos em áreas das regiões Norte e Nordeste. No Sul, as frentes frias podem permanecer ou atuar de maneira mais favorável à formação de chuva, aumentando a ocorrência de episódios persistentes.
Em Santa Catarina, o cenário merece atenção especial porque a primavera já é, naturalmente, uma estação marcada por maior instabilidade atmosférica e ocorrência de chuvas.
Com o avanço do El Niño, a combinação desses fatores pode elevar o risco de eventos severos.
Fenômeno é monitorado por oceano e atmosfera
A confirmação do El Niño não depende exclusivamente da temperatura do Oceano Pacífico.
Um dos principais parâmetros utilizados no monitoramento internacional é a temperatura da superfície do mar na região conhecida como Niño 3.4, no Pacífico Equatorial. O aquecimento precisa alcançar pelo menos 0,5°C acima da média climatológica, além de apresentar persistência.
Mas existe outro componente fundamental: a atmosfera precisa responder ao aquecimento do oceano.
Entre os indicadores observados estão alterações nos ventos e na circulação atmosférica sobre o Pacífico Equatorial. É justamente a interação entre essas mudanças oceânicas e atmosféricas que caracteriza o fenômeno. (Defesa Civil SC)
A Defesa Civil de Santa Catarina explica que, no monitoramento operacional, são considerados principalmente três elementos: temperaturas na região Niño 3.4 iguais ou superiores a +0,5°C, sinais consistentes de resposta atmosférica e previsão de manutenção dessas condições nos meses seguintes. (Defesa Civil SC)
Pico de intensidade deve ocorrer entre primavera e verão
O El Niño se desenvolve gradualmente. As primeiras alterações podem aparecer meses antes do período de maior intensidade, enquanto o pico costuma ocorrer entre a primavera e o verão no Hemisfério Sul.
Para 2026, as projeções indicam justamente esse comportamento. O fenômeno começou com intensidade fraca e apresenta tendência de fortalecimento ao longo dos próximos meses.
Em julho, a NOAA elevou para 81% a chance de o El Niño atingir intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão. A Defesa Civil também projeta que o fenômeno poderá continuar influenciando as condições climáticas até o outono de 2027. (Defesa Civil SC)
Santa Catarina já sente mudanças no padrão atmosférico
Embora os especialistas ressaltem que eventos isolados não podem ser atribuídos exclusivamente ao El Niño, a Defesa Civil estadual já identifica padrões compatíveis com a influência do fenômeno.
Em julho, por exemplo, o órgão apontou a ocorrência de um período de calor fora de época seguido por chuva mais intensa como o primeiro evento meteorológico com influência direta do fenômeno desde sua confirmação. A previsão também indicava tendência de tempo mais chuvoso que o normal nos meses seguintes. (Defesa Civil SC)
Isso não significa que todos os episódios de chuva ou calor registrados no Estado sejam provocados pelo El Niño. O fenômeno funciona como um fator que altera o padrão climático de fundo, enquanto os eventos específicos dependem da atuação de sistemas meteorológicos de curto prazo.
Monitoramento será decisivo para reduzir riscos
Diante da perspectiva de intensificação do fenômeno, a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil mantém acompanhamento permanente das condições do Oceano Pacífico e da atmosfera, em conjunto com a Epagri/Ciram e instituições que integram o Fórum Climático Catarinense.
A estratégia é acompanhar a evolução do El Niño, atualizar as previsões e emitir avisos e alertas sempre que houver risco meteorológico para a população. (Defesa Civil SC)
O cenário reforça a importância da preparação antecipada de municípios, órgãos públicos, empresas e famílias, especialmente nas regiões historicamente suscetíveis a inundações, enxurradas e movimentos de massa.
A orientação é acompanhar os boletins oficiais e redobrar a atenção diante de previsões de chuva intensa e temporais. A Defesa Civil também recomenda que as famílias tenham um plano de emergência e conheçam os procedimentos a serem adotados em situações de risco. (Defesa Civil SC)
O El Niño nasce a milhares de quilômetros de Santa Catarina, no Oceano Pacífico, mas seus efeitos atravessam continentes e modificam padrões atmosféricos em diferentes partes do planeta.
Para os catarinenses, a principal preocupação está na possibilidade de um período mais chuvoso e com maior frequência de eventos extremos, especialmente à medida que o fenômeno se aproxima de sua fase de maior intensidade.
Por isso, mais do que acompanhar apenas a temperatura do Pacífico, meteorologistas e órgãos de proteção precisam observar continuamente a combinação entre oceano, atmosfera, frentes frias, sistemas de baixa pressão e condições locais.
O alerta, neste momento, não significa que Santa Catarina terá necessariamente uma sequência de desastres, mas indica a necessidade de preparação, monitoramento e resposta rápida diante de episódios de tempo severo.













