CONSTRUÇÃO CIVIL ACELERA TRANSFORMAÇÃO COM TECNOLOGIA, INDUSTRIALIZAÇÃO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Especialistas discutiram os caminhos para modernizar a construção civil durante o seminário ReConstruir, promovido pelo Instituto SENAI de Tecnologia em Cerâmica, em Criciúma. (Foto: FIESC/Divulgação)

A construção civil está diante de uma mudança que deixou de ser uma promessa para o futuro e passou a representar uma necessidade imediata. Em um cenário marcado pela escassez de mão de obra, custos cada vez mais pressionados e necessidade de aumentar a velocidade de execução dos empreendimentos, a combinação entre tecnologia, industrialização, novas metodologias de gestão e qualificação profissional surge como uma das principais alternativas para transformar o setor.

O diagnóstico foi apresentado por especialistas que participaram do seminário ReConstruir, promovido pelo Instituto SENAI de Tecnologia em Cerâmica, em Criciúma. O encontro colocou em debate os desafios e as oportunidades relacionados à modernização da cadeia da construção e mostrou que a transformação do setor depende de uma mudança estrutural na maneira de planejar, projetar, administrar e executar as obras.

Novo modelo exige mudança na gestão e valorização profissional

Para os especialistas, os gargalos históricos da construção civil não serão solucionados por uma única tecnologia ou metodologia. A tendência é de integração entre diferentes ferramentas e processos, com decisões tomadas cada vez mais cedo e baseadas em informações confiáveis.

O engenheiro civil Lucas Morelle Oliveira, da MRV, defende que a consolidação de novos modelos produtivos passa pela adoção contínua de métodos de gestão desde as primeiras etapas dos empreendimentos. Na avaliação do especialista, a transformação tecnológica precisa caminhar lado a lado com a valorização dos profissionais.

Em um mercado no qual empresas disputam trabalhadores qualificados, a capacidade de atrair e principalmente manter talentos passa a ter impacto direto sobre produtividade, qualidade e continuidade dos projetos.

Produzir mais, melhor e mais rápido

A busca por ganhos de escala e pela utilização mais eficiente dos recursos também foi destacada pelo coordenador do Instituto SENAI de Tecnologia em Cerâmica, Anselmo Medeiros Marcelino.

Para ele, a combinação de novas metodologias, industrialização e tecnologia responde diretamente a uma das principais necessidades do setor: aumentar a capacidade produtiva sem ampliar proporcionalmente o consumo de recursos.

Marcelino destacou ainda que a integração entre BIM e industrialização representa uma ferramenta estratégica para elevar a produtividade da construção.

“Isso vai ao encontro do propósito do SENAI de ajudar o setor a produzir mais, melhor e mais rápido, utilizando menos recursos”, afirmou.

A lógica é aproximar cada vez mais a construção civil de processos industriais, nos quais planejamento, padronização, controle de qualidade e previsibilidade ocupam papel central.

BIM pode elevar produtividade e impacto econômico

Entre as tecnologias que já estão modificando a construção civil, o BIM (Building Information Modeling) ocupa posição de destaque. A metodologia permite criar e administrar representações digitais dos empreendimentos, reunindo informações que podem ser utilizadas ao longo de diferentes etapas do ciclo de construção.

Mais do que uma ferramenta de desenho, o BIM permite antecipar conflitos, analisar alternativas e identificar problemas antes que eles cheguem ao canteiro de obras. Com isso, decisões podem ser tomadas previamente, reduzindo retrabalhos e aumentando a previsibilidade dos projetos.

O potencial econômico da tecnologia também chama atenção. Estudo da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) indica que, caso o BIM alcance 50% de adoção entre as empresas brasileiras, o PIB da construção civil poderá crescer 7%.

Apesar desse potencial, a utilização da metodologia ainda tem espaço significativo para avançar. Segundo pesquisa da FGV IBRE, em março de 2024, 20,6% das empresas de construção no Brasil utilizavam BIM.

Tecnologia antecipa problemas antes de chegarem à obra

A diretora da Conexão BIM, Kesia Alves da Silva, avalia que a expansão da metodologia representa uma mudança de paradigma para a indústria da construção.

Na prática, a possibilidade de visualizar virtualmente diferentes aspectos de um empreendimento permite identificar inconsistências e avaliar alternativas antes da execução. O resultado é uma tomada de decisão mais antecipada e estruturada.

Essa capacidade ganha ainda mais relevância com a expansão da Inteligência Artificial (IA) aplicada aos negócios. A tecnologia pode ampliar a velocidade de análise de informações e auxiliar empresas na avaliação de cenários, identificação de padrões e apoio à tomada de decisões.

Inteligência Artificial amplia capacidade de gestão

Quando associada à modelagem virtual e aos sistemas de gestão, a IA pode atuar em diferentes pontos da operação empresarial. Entre as possibilidades estão o acompanhamento de insumos, análise de dados, identificação de desvios, planejamento de atividades e controle de requisitos.

Para os especialistas reunidos no seminário, o avanço dessas tecnologias aponta para uma construção civil cada vez mais orientada por dados.

A CIO da Starian, Carla Cristina de Souza, afirmou que a utilização dessas ferramentas deixou de representar apenas uma possibilidade de inovação e passou a ser um diferencial estratégico para empresas que buscam maior desempenho, precisão e governança.

A mudança também altera o perfil das organizações. A tendência é que decisões anteriormente baseadas predominantemente em experiência e percepção passem a contar com maior suporte de informações estruturadas, modelos digitais e sistemas capazes de processar grandes volumes de dados.

Industrialização aproxima o canteiro de uma lógica de fábrica

Outro eixo discutido no ReConstruir foi a industrialização da construção. A proposta envolve ampliar a utilização de processos padronizados, planejamento antecipado e soluções que permitam reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade.

Nesse contexto, BIM, industrialização e gestão deixam de funcionar como iniciativas independentes e passam a formar uma cadeia integrada.

A lógica é simples: quanto mais informações estiverem disponíveis antes da execução, maior tende a ser a capacidade de prever necessidades, organizar recursos, reduzir interferências e controlar resultados.

Para um setor historicamente afetado por desperdícios, retrabalhos, atrasos e oscilações de custos, essa transformação pode representar uma mudança significativa na forma de produzir.

Capital humano continua no centro da transformação

Apesar do avanço acelerado das tecnologias, os especialistas ressaltam que a modernização não elimina a importância das pessoas. Pelo contrário: exige profissionais preparados para trabalhar com novas ferramentas, interpretar informações e participar de processos cada vez mais integrados.

A qualificação passa, portanto, a ser parte estratégica da transformação. A adoção de BIM, IA e processos industrializados depende de equipes capazes de compreender essas soluções e incorporá-las à rotina dos empreendimentos.

Nesse cenário, a valorização profissional ganha importância não apenas como estratégia de retenção, mas também como instrumento para garantir que os investimentos em tecnologia produzam resultados concretos.

SENAI amplia suporte tecnológico ao setor

O Instituto SENAI de Tecnologia em Cerâmica, em Criciúma, também atua diretamente no desenvolvimento e na avaliação de materiais e processos utilizados pela construção civil.

A unidade disponibiliza laboratórios acreditados pelo Inmetro/CGCRE, preparados para realizar ensaios em diferentes etapas da cadeia produtiva. Os serviços abrangem desde matérias-primas, como minerais, até produtos acabados, incluindo cerâmicas e concretos.

Também são realizados testes em insumos e materiais empregados na construção, além de análises relacionadas ao desempenho das edificações.

A estrutura permite apoiar empresas na avaliação de materiais, controle de qualidade e desenvolvimento de soluções, contribuindo para uma cadeia produtiva mais segura, eficiente e tecnologicamente preparada.

Uma transformação que já começou

As discussões do ReConstruir reforçam que a modernização da construção civil não depende de uma única inovação. O futuro do setor passa pela combinação entre BIM, inteligência artificial, industrialização, gestão eficiente, qualificação profissional e controle de qualidade.

Mais do que construir mais rápido, o desafio é construir com maior previsibilidade, menor desperdício e melhor utilização dos recursos disponíveis.

Em um mercado pressionado pela necessidade de produtividade e pela falta de profissionais especializados, a transformação tecnológica deixa de ser apenas uma vantagem competitiva. Ela passa a ser parte da própria estratégia de sobrevivência e evolução da construção civil.

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