
O uso inadequado de medicamentos que contêm corticoides, especialmente sem prescrição médica, pode estar contribuindo para o aumento dos casos de glaucoma no Brasil. O alerta é da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), que defende maior controle na comercialização dessas substâncias. A doença, que afeta o nervo óptico e pode causar cegueira irreversível, atinge cerca de 1,7 milhão de brasileiros.
Utilizados para combater inflamações, alergias, problemas respiratórios, irritações oculares e diversas outras condições, os corticoides são amplamente consumidos pela população. O alívio rápido dos sintomas faz com que muitas pessoas recorram à automedicação e reutilizem os medicamentos sempre que os problemas reaparecem.
Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma, Roberto Murad Vessani, o uso prolongado dessas substâncias pode comprometer a drenagem natural do líquido intraocular, provocando aumento da pressão dentro dos olhos. Quando essa condição persiste, pode causar danos permanentes ao nervo óptico e desencadear o glaucoma.
A doença não tem cura e, sem tratamento adequado, pode resultar em perda definitiva da visão.
Problema de saúde pública
Diante do cenário, a Sociedade Brasileira de Glaucoma, em conjunto com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), encaminhou uma nota pública à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a diversas entidades médicas alertando sobre os riscos do uso indiscriminado de corticoides.
“É muito grave. Na verdade, é um problema de saúde pública”, afirmou Roberto Vessani.
As entidades defendem medidas mais rígidas para a comercialização desses medicamentos, semelhantes às adotadas atualmente para os antibióticos, cuja venda exige retenção de receita médica.
Impactos além dos olhos
Os especialistas destacam que os riscos do uso excessivo de corticoides não se limitam à saúde ocular. Entre os efeitos colaterais associados estão aumento da glicose sanguínea, agravamento do diabetes, ganho de peso, retenção de líquidos, hipertensão arterial, enfraquecimento ósseo, alterações hormonais e maior vulnerabilidade a infecções.
No entanto, os danos à visão têm gerado especial preocupação devido ao potencial de causar sequelas irreversíveis.
Pacientes com glaucoma são ainda mais vulneráveis
De acordo com Vessani, aproximadamente 90% dos pacientes que já possuem glaucoma apresentam sensibilidade aos corticoides. Nesses casos, o uso das substâncias pode provocar elevação significativa da pressão ocular, agravando a doença e aumentando o risco de perda visual.
A preocupação também se estende às crianças. Em casos de alergias oculares recorrentes, muitos pais utilizam colírios com corticoides sem orientação médica, o que pode resultar tanto em glaucoma quanto no desenvolvimento precoce de catarata.
Campanhas buscam conscientizar médicos e pacientes
Além do diálogo com órgãos reguladores, as entidades oftalmológicas vêm promovendo campanhas educativas para conscientizar profissionais de saúde e a população sobre os riscos do uso crônico de corticoides.
O objetivo é ampliar o conhecimento entre especialidades médicas que frequentemente prescrevem esses medicamentos, como ortopedia, reumatologia, pediatria e geriatria, reduzindo a ocorrência de complicações oftalmológicas.
Segundo os especialistas, em poucas semanas de uso contínuo já podem ocorrer elevações da pressão intraocular. Sem acompanhamento adequado, o paciente pode desenvolver glaucoma e sofrer perda permanente da visão.
Idosos e usuários crônicos estão entre os grupos de maior risco
A prevalência do glaucoma aumenta significativamente com o avanço da idade. Conforme a Sociedade Brasileira de Glaucoma, a partir dos 40 anos o risco praticamente dobra a cada década de vida.
Por isso, idosos que utilizam corticoides por longos períodos para tratar doenças crônicas merecem atenção especial. Muitos já convivem com glaucoma sem diagnóstico ou tratamento adequado, o que amplia os riscos associados ao uso dessas medicações.
As entidades recomendam que pacientes em tratamento prolongado com corticoides realizem monitoramento periódico da pressão intraocular, especialmente crianças, idosos e pessoas que já apresentam fatores de risco para o glaucoma.
Controle mais rigoroso é defendido pelas entidades
Para a Sociedade Brasileira de Glaucoma, o caminho para reduzir os casos relacionados à automedicação passa pela ampliação da fiscalização e pela exigência de maior controle na venda dos corticoides.
“A grande preocupação é com a informação e a conscientização da população e dos profissionais da área da saúde que prescrevem essas medicações”, reforçou Roberto Vessani.
A expectativa das entidades é que medidas regulatórias mais rígidas contribuam para evitar novos casos de glaucoma e preservar a saúde visual da população brasileira.
(Fonte:Agência Brasil)













