ENTRE O AMOR E O ESGOTAMENTO: A LUTA INVISÍVEL DAS MÃES ATÍPICAS EM SANTA CATARINA GANHA VOZ E POLÍTICAS PÚBLICAS

Nadynne Chagas e seu filho Matheus. (Foto: Ana Quinto / Agência Alesc)

Abril de 2022 marcou mais do que o mês de conscientização sobre o autismo. Foi também o ponto de virada na vida de Nadynne Chagas.

O diagnóstico do filho, Matheus, então com dois anos, com Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 3 de suporte, veio após uma longa jornada de dúvidas. Tudo começou com um sinal aparentemente simples: o atraso na fala.

A suspeita inicial era de surdez. Vieram exames, consultas e encaminhamentos — até o laudo definitivo. Com ele, um impacto profundo.

“Eu me vi perdida. Foi o maior baque da minha vida. Naquele momento, só conseguia pensar: como vai ser daqui para frente? Será que eu vou dar conta?”, relembra.

A maternidade que não pausa

Separada do pai da criança, Nadynne assumiu praticamente sozinha os cuidados do filho. O diagnóstico não mudou apenas a rotina — transformou completamente sua vida emocional.

Medo, insegurança e a sensação constante de não ter pausa passaram a fazer parte do cotidiano.

Hoje, aos seis anos, Matheus é o rosto de uma realidade que cresce em Santa Catarina — e que começa a ganhar espaço no debate público.

O avanço dos casos e a resposta do Parlamento

O aumento nos diagnósticos de autismo tem mobilizado a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). A Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência intensificou ações para ampliar o suporte às famílias, especialmente às mães atípicas — maioria entre os responsáveis diretos pelo cuidado.

Além do debate, o Parlamento tem avançado na criação de políticas públicas.

Entre as iniciativas estão:

* Semana da Mãe Atípica

* Dia da Mãe Atípica (30 de novembro)

* Programa “Cuidando de Quem Cuida”

Outro marco é a Lei 18.557/2022, que garante o pagamento de um salário mínimo mensal para mães em situação de vulnerabilidade social que cuidam de pessoas com autismo nível 3.

O benefício atende famílias com renda de até dois salários mínimos e já alcança cerca de 467 famílias catarinenses, com investimento mensal superior a R$ 750 mil.

A medida reconhece um ponto central: muitas dessas mães precisam abrir mão da vida profissional para cuidar integralmente dos filhos.

Inclusão ainda é desafio

Apesar dos avanços, a realidade ainda impõe obstáculos, principalmente na educação.

O presidente da Comissão, deputado Dr. Vicente Caropreso (União), aponta que a inclusão escolar ainda é desigual. Enquanto algumas escolas estaduais avançam, muitos municípios enfrentam dificuldades com estrutura e profissionais qualificados.

A preocupação cresce junto com os números: a prevalência do autismo, que antes era de um caso a cada 150 nascimentos, hoje chega a um para cada 36.

Diante desse cenário, o Parlamento intensifica ações em todo o estado. Só em 2026, estão previstos 22 eventos, sete deles em abril, dentro da campanha Abril Azul.

Entre os destaques está a Caravana da Inclusão, que percorre cidades levando informação e orientação.

“Há muita desinformação sobre o tema. Muitas pessoas ainda confundem o diagnóstico ou generalizam situações. Por isso, esses eventos são fundamentais para orientar famílias e profissionais”

O preconceito que pesa mais que o diagnóstico

Para Nadynne, o maior desafio não é apenas o autismo — mas a forma como a sociedade enxerga essa realidade.

“Meu filho não é um problema. Ele é uma criança neurodivergente. Mas as pessoas confundem tudo. Acham que é exagero, que é vitimismo”, desabafa.

Ela explica que crises comuns dentro do espectro são frequentemente interpretadas de forma equivocada.

“Situações como resistência a tarefas simples — comer, vestir-se ou realizar a higiene — podem se transformar em momentos intensos e desgastantes, invisíveis para quem está de fora”

“Tem dias em que ele pode não querer usar uma roupa, não querer comer ou simplesmente entrar em crise. E ninguém entende o que isso significa dentro de casa.”

A sobrecarga silenciosa

Sem uma rede de apoio efetiva, Nadynne precisou reorganizar toda a sua vida.

Consultas médicas são adiadas. Compromissos cancelados. O autocuidado se torna raro.

“A mãe não tira férias. Não tem descanso. Não tem tempo para respirar. E, mesmo assim, a cobrança é sempre em cima dela.”

A pressão social também pesa.

“Se a criança está em crise, a culpa é da mãe. Se não evolui, a culpa é da mãe. Ninguém pergunta como essa mãe está”

Violência, trauma e reconstrução

Como se os desafios já não fossem suficientes, a família enfrentou um episódio ainda mais doloroso: Matheus foi vítima de maus-tratos em uma escola particular da Grande Florianópolis.

A descoberta veio por meio de um chamado policial.

“Eu entrei em estado de choque. Tive que assistir aos vídeos para confirmar. Aquilo me destruiu.”

O caso envolvia outras crianças e resultou na condenação da responsável pela instituição. Ainda assim, as marcas permanecem.

“Esses anos de prisão não apagam o que ficou. Eu nunca vou saber exatamente o que ele sentiu, porque ele não consegue me contar.”

Após o episódio, Nadynne desenvolveu um bloqueio social e precisou reconstruir sua vida mais uma vez.

Recomeços possíveis

Quatro anos depois, a rotina começa, aos poucos, a se reorganizar. Matheus voltou à escola, agora com acompanhamento e adaptações.

O processo, porém, foi longo.

“Eu precisei recalcular a rota mil vezes. Minha vida parou por muito tempo.”

Um pedido por empatia e visibilidade

Mesmo diante das dificuldades, Nadynne deixa um alerta direto:

“A sociedade adoece as mães atípicas. Mais do que o autismo, é a falta de compreensão que machuca.”

Para ela, aprender a filtrar cobranças é essencial.

“Se a gente ouvir tudo o que dizem, a gente não aguenta. É preciso abstrair e, quando possível, cuidar de si sem culpa.”

E reforça:

“A gente é forte, sim. Mas também precisa de acolhimento. Precisa ser vista”

Santa Catarina como referência, mas com caminho pela frente

A visibilidade que histórias como a de Nadynne trazem começa a se refletir em políticas públicas.

Santa Catarina tem se consolidado como referência em iniciativas legislativas voltadas ao suporte e reconhecimento das mães atípicas.

As medidas buscam reduzir a sobrecarga, garantir direitos e ampliar a inclusão social.

Mas, como mostra a própria realidade dessas mulheres, o desafio vai além das leis: passa, sobretudo, por uma mudança de olhar da sociedade.

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