
Desde 2017, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) vem desempenhando um papel importante na valorização da saúde mental como política pública, com a criação da Campanha Janeiro Branco. A iniciativa marcou um avanço institucional ao colocar o cuidado psicológico no centro do debate social e legislativo.
De autoria do deputado Neodi Saretta (PT), a Lei nº 17.330/2017, posteriormente revogada e incorporada à Lei nº 18.531/2022, atualizou e ampliou diretrizes sobre saúde mental no Estado. Mesmo com a atualização legal, o legado da campanha segue atual, necessário e urgente.
Sob o lema “Quem cuida da mente, cuida da vida!”, o Janeiro Branco contribui para romper silêncios históricos, estimular o diálogo e tirar da invisibilidade um tema que, por muito tempo, foi tratado como tabu.
Dados que revelam uma realidade preocupante
Falar de saúde mental é falar de vidas reais, histórias interrompidas e sofrimentos que nem sempre são visíveis. Em Santa Catarina, os números reforçam a gravidade do tema.
Segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), o Estado apresenta índices de suicídio acima da média nacional, especialmente entre jovens e homens adultos. Em alguns anos recentes, Santa Catarina figurou entre os estados com as maiores taxas proporcionais de mortes autoprovocadas, um alerta que evidencia a necessidade de políticas permanentes de prevenção, acolhimento e cuidado psicológico.
O início do ano como convite à reflexão
A Campanha Janeiro Branco nasceu com o propósito de provocar reflexão logo no começo do ano — período tradicionalmente associado a recomeços, metas e novos planos. A proposta é simples, mas profunda: olhar para dentro, reconhecer fragilidades, buscar ajuda e compreender que saúde mental é tão essencial quanto a saúde física.
Ansiedade, depressão, estresse crônico e burnout não são sinais de fraqueza, mas alertas de que algo precisa de atenção.
Burnout: quando o corpo e a mente pedem socorro
A jornalista Magali Collonetti viveu na prática o impacto do esgotamento mental. Seu relato revela como o burnout pode se instalar de forma silenciosa:
“Eu estava mergulhada na organização de um evento e, de repente, fiquei apática. Consegui chegar em casa, dei comida para o meu cachorro e deitei na cama. Dormi até o dia seguinte e acordei chorando. Eu estava exausta. Mesmo assim, precisei trabalhar. Eu pensava: preciso me cuidar para não ter um burnout. Mas eu já estava em um.”
Magali conta que o esgotamento dificultava até tarefas simples do dia a dia.
“Ficar em pé era difícil. Tomar banho exigia esforço. Cozinhar, caminhar com meu cachorro ou conversar com as pessoas parecia impossível. Eu sempre fui muito ágil, mas não conseguia mais fazer nada como antes.”
Tabu ainda impede a busca por ajuda
Para o médico psiquiatra da Alesc, Marcelo Coltro, o preconceito em relação à saúde mental ainda é um dos maiores obstáculos para o diagnóstico e o tratamento adequados.
“Vivemos uma rotina de trabalho excessiva, com tudo acontecendo muito rápido. O esgotamento mental está cada vez mais comum, mas o tabu persiste. Muitas pessoas permanecem sofrendo por muito tempo sem procurar ajuda, o que interfere na qualidade de vida, no trabalho, nas relações pessoais e, em casos mais graves, leva à desvalorização da própria vida.”
Coltro destaca que os sinais nem sempre são evidentes.
“Alterações de comportamento, tristeza, irritabilidade, isolamento ou dedicação excessiva ao trabalho, noites mal dormidas e exaustão constante são alertas importantes.”
Quando a dedicação ao trabalho cobra seu preço
Magali relembra que a cultura da produtividade extrema fez com que os sinais do esgotamento fossem ignorados.
“Eu achava que era algo temporário. Fui segurando até que meu corpo começou a adoecer. Eram gripes, sinusites, problemas gastrointestinais sem explicação. Só depois, com o laudo médico, percebi que o burnout já era suspeita havia meses.”
Ela faz um alerta importante:
“Burnout é resultado de uma cultura de trabalho problemática. Parar ainda é um privilégio, e denunciar comportamentos abusivos é delicado. Mas é preciso lembrar: burnout é considerado acidente de trabalho e gera direitos.”
Cuidar da mente é um compromisso coletivo
Boa alimentação, sono adequado, prática de exercícios físicos e fortalecimento das relações sociais são algumas das recomendações do psiquiatra Marcelo Coltro para preservar a saúde mental.
“O ser humano não foi feito para viver sozinho. Precisamos de laços sociais, diálogo e acolhimento. Às vezes, uma simples conversa pode salvar uma vida.”
Ele reforça a importância de campanhas como o Janeiro Branco:
“Elas desmistificam o tema, ampliam a comunicação e encorajam as pessoas a buscar ajuda. Uma mão estendida pode gerar um abraço, e esse abraço pode salvar uma vida.”
Mais do que um mês, um chamado permanente
Mais do que um período simbólico no calendário, o Janeiro Branco reforça que cuidar da saúde mental deve ser um compromisso contínuo, coletivo e cotidiano. É um convite permanente à empatia, ao diálogo e ao cuidado — consigo e com o outro.













