Aos 56 anos, a engenheira agrônoma Adriana Rizzo poderia encarar as três horas semanais como apenas mais um compromisso na agenda. Para ela, porém, esse tempo representa muito mais: é uma forma de retribuir à sociedade as oportunidades, o apoio e os aprendizados que recebeu ao longo da vida.
Há 30 anos, Adriana é plantonista voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), dedicando parte da rotina a ouvir pessoas que procuram o serviço em momentos de sofrimento emocional.
Uma vez por semana, ela se coloca do outro lado da linha para oferecer aquilo que, muitas vezes, parece simples, mas pode ter enorme significado: atenção, acolhimento e escuta sem julgamentos.
“Como voluntário do CVV, a gente se dispõe a doar atenção. São três horas por semana para conversar com as pessoas que estão precisando”, explica Adriana.
Uma rede que funciona 24 horas
O trabalho é realizado por uma rede de voluntários que se reveza para manter o serviço disponível 24 horas por dia, durante toda a semana.
Segundo Adriana, atualmente são cerca de 2.400 voluntários mobilizados em todo o Brasil, formando, nas palavras dela, “uma rede de apoio e de empatia”.
O atendimento pode ser realizado pelo telefone 188, gratuitamente, além de e-mail e chat.
Para Adriana, a essência do trabalho está justamente na disposição de ouvir. Não se trata de oferecer respostas prontas, dar conselhos ou julgar decisões. Trata-se de criar um espaço seguro para que a pessoa possa falar.
O desejo de ajudar começou há três décadas
Natural de Araraquara, no interior de São Paulo, Adriana conta que sempre teve vontade de realizar algum tipo de trabalho voluntário.
A oportunidade surgiu quando soube que seria realizado um curso de formação do CVV na cidade onde morava. Ela decidiu participar. O treinamento, gratuito, abriu caminho para uma trajetória que permanece até hoje.
“Eu queria fazer um trabalho voluntário e me identifiquei com esse. Fiquei sabendo que teria um curso na cidade onde moro, fiz o treinamento e gostei. E aqui estou”, conta.
A motivação para continuar também permanece praticamente a mesma desde o início: ajudar e devolver à sociedade um pouco do que recebeu.
“O que me motivou foi poder ajudar, fazer algo pela sociedade. Tive grandes apoios na minha vida e quis retribuir de alguma forma.”
A solidão nem sempre significa estar sozinho
Ao longo de 30 anos, Adriana ouviu inúmeras histórias. Cada atendimento é diferente, porque cada pessoa carrega uma realidade própria, com experiências, sentimentos e dificuldades particulares.
Entre tantas situações, algumas ficaram especialmente marcadas na memória da voluntária: aquelas em que a pessoa está rodeada de familiares, amigos ou colegas, mas, ainda assim, experimenta uma profunda sensação de solidão.
“Cada um tem a sua história, mas todos são importantes. As histórias fazem a gente refletir. As que mais me marcam são aquelas de pessoas que estão cercadas de outras pessoas, mas se sentem sozinhas.”
A experiência ensinou a Adriana que solidão não significa necessariamente ausência de companhia. Muitas vezes, o que falta é alguém disposto a parar, ouvir e tentar compreender — sem transformar aquela conversa em crítica ou julgamento.
Ouvir sem aconselhar, criticar ou condenar
A proposta do CVV é justamente estabelecer um diálogo diferente daquele que muitas vezes ocorre no cotidiano.
Segundo Adriana, durante o atendimento, o voluntário procura interferir o mínimo possível na narrativa de quem está do outro lado.
“Quando começam a contar a história, nós procuramos interferir o mínimo possível, não aconselhamos ou criticamos”, afirmou.
Ela explica que o objetivo é compreender a situação sob a perspectiva de quem procura o atendimento.
“Muitas vezes, no dia a dia, criticamos as decisões das pessoas e acabamos não compreendendo o que está acontecendo com ela, que tem um motivo para ter feito algumas escolhas na vida. Nós do CVV procuramos entender esse lado, se colocar no lugar dela”, completou.
A identidade de quem procura o serviço também é preservada. Nome, telefone e endereço não são solicitados durante o atendimento.
Voluntários passam por preparação
Para quem deseja fazer parte da rede, Adriana explica que é preciso ter mais de 18 anos e participar do processo de formação oferecido pela instituição.
Antes de começar os atendimentos, os candidatos passam por uma preparação que aborda a metodologia de trabalho do CVV, o perfil das pessoas que procuram o serviço e a dinâmica da conversa entre voluntário e atendido.
Também há atividades práticas.
“Fazemos treinamentos práticos, simulações de situações que atendemos com maior frequência”, contou Adriana.
Para ela, essa preparação é importante principalmente nos primeiros atendimentos, quando o voluntário ainda está adquirindo segurança para exercer a função.
Uma missão que precisa da sociedade
Apesar de contar com uma ampla rede de voluntários, Adriana destaca que o CVV enfrenta desafios e depende do apoio da sociedade para manter e ampliar suas atividades.
Além dos recursos necessários para o funcionamento da instituição, aumentar o número de voluntários é fundamental para fortalecer a rede de acolhimento.
Para Adriana, porém, a essência continua sendo a mesma de quando começou: disponibilizar tempo para outra pessoa.
Depois de três décadas ouvindo histórias de diferentes pessoas e realidades, ela deixa uma mensagem direta:
“Se você não estiver bem, busque ajuda. Converse com alguém em quem confia, com amigos ou familiares. Não fique sozinho.”
Setembro Amarelo: a força de uma conversa
Durante o Setembro Amarelo, período de mobilização em torno da valorização da vida e da prevenção do suicídio, a trajetória de Adriana mostra que o acolhimento também pode começar com um gesto aparentemente simples: estar disposto a ouvir.
O CVV oferece atendimento gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia pelo telefone 188, além de canais digitais.
Para Adriana, são três horas por semana. Para quem está do outro lado, pode representar a oportunidade de falar, ser ouvido e perceber que existe alguém disposto a acolher.
“Cada história é importante. E estar ali para ouvir já pode fazer uma diferença.”
30 anos
de dedicação voluntária ao atendimento e à escuta.
2.400 voluntários
mobilizados em rede em todo o Brasil, segundo Adriana.
3 horas por semana
dedicadas por Adriana ao acolhimento de quem procura o CVV.
24 horas por dia
de atendimento gratuito e sigiloso pelo CVV.
CVV — Ligue 188.
ALESC EXPLICA
Como funciona o trabalho voluntário de Adriana no CVV?
Adriana dedica três horas por semana ao atendimento de pessoas que procuram o Centro de Valorização da Vida. Ela atua como voluntária há 30 anos.
Como entrar em contato com o CVV?
A reportagem informa que o serviço pode ser acessado pelo telefone 188, gratuitamente, além dos canais digitais disponibilizados pela instituição.
O que é necessário para ser voluntário?
Segundo Adriana, é preciso ter mais de 18 anos e participar do processo de formação oferecido pelo CVV antes de iniciar os atendimentos.
Como o voluntário conduz a conversa?
De acordo com Adriana, o atendimento busca oferecer escuta e acolhimento, com mínima interferência. Ela explica que os voluntários não aconselham ou criticam quem procura o serviço e que a identidade de quem liga é mantida em sigilo.
(Conteúdo: Reportagem Especial Agência Alesc)














