STF DIANTE DO ESPELHO: TERÇA-FEIRA PODE TESTAR SE A CORTE ESTÁ ACIMA DA LEI OU ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

Julgamento sobre Alexandre de Moraes e o caso Banco Master coloca o Supremo diante de uma decisão que ultrapassa os autos: investigar com independência, transparência e sem blindagem corporativa.

O Supremo Tribunal Federal chega à sessão de terça-feira, 15 de setembro, diante de uma das mais delicadas decisões de sua história recente. Não estará em jogo apenas o destino de uma investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Estará em jogo a credibilidade de uma instituição que, pela própria natureza de suas atribuições, precisa demonstrar que não existem cidadãos acima da lei e muito menos ministros acima de qualquer suspeita.

O plenário deverá analisar se existem elementos suficientes para que seja aberta investigação sobre as relações entre Moraes e Vorcaro, a partir de mensagens encontradas pela Polícia Federal no material apreendido durante as investigações do caso Banco Master. O julgamento ocorre em meio a uma crise interna que já expôs divergências profundas entre integrantes da própria Corte. (Folha de S.Paulo⁠)

E aqui está o ponto central.

Investigar não significa condenar.

Uma investigação não transforma suspeita em culpa, assim como o arquivamento de uma investigação não pode ser utilizado como certificado automático de inocência quando ainda existem perguntas relevantes sem resposta.

É justamente por isso que a sociedade espera do Supremo uma decisão baseada exclusivamente nos fatos, nas provas e no devido processo legal.

Não se pede espetáculo. Não se pede condenação antecipada. Não se pede julgamento político.

Pede-se investigação quando houver elementos que a justifiquem.

O teste da imparcialidade

O caso ganhou dimensão ainda maior porque envolve diretamente um integrante da própria Corte que deverá decidir sobre a abertura, ou não,da investigação.

É nesse ponto que surge a pergunta inevitável: pode uma instituição investigar seus próprios integrantes com a mesma independência que exige de qualquer outro cidadão ou autoridade?

A resposta precisa ser dada não apenas pelos ministros, mas pelo comportamento institucional do Supremo.

A crise se agravou depois que documentos e mensagens relacionados ao caso vieram a público, provocando uma sucessão de manifestações e decisões conflitantes entre ministros. O presidente Edson Fachin assumiu a condução de procedimentos relacionados ao caso e manteve para terça-feira o julgamento específico envolvendo Moraes. (Folha de S.Paulo⁠)

Até mesmo dentro do STF há divergências sobre a forma de condução do episódio. O ministro Gilmar Mendes, por exemplo, pediu o adiamento da sessão e defendeu que outros procedimentos fossem analisados conjuntamente. (Agência Brasil⁠)

Tudo isso revela que não estamos diante de uma controvérsia banal.

E Toffoli?

É preciso separar os episódios.

Relatório da Polícia Federal apontou indícios de uma relação entre Dias Toffoli e Vorcaro, incluindo informações sobre negócios relacionados ao resort Tayayá, no Paraná, além de encontros e viagens. O ministro nega irregularidades e a investigação envolvendo seu nome recebeu tratamento diferente dentro da Corte, tendo sido arquivada por unanimidade. (UOL Notícias⁠)

Isso não significa que o assunto deixou de existir no debate público.

Ao contrário.

Quando uma investigação policial aponta elementos que considera relevantes para aprofundamento, a sociedade tem o direito de perguntar por que determinado episódio avança e outro é arquivado. Critério precisa ser uniforme.

Se há elementos, que sejam examinados.

Se não há elementos suficientes, que se explique publicamente por quê.

O que não pode prevalecer é a sensação de que a régua muda conforme o investigado.

O verdadeiro julgamento

Talvez o julgamento de terça-feira seja muito maior do que o destino de um procedimento contra um ministro.

Será um julgamento sobre transparência, imparcialidade e confiança institucional.

O Supremo tem poderes constitucionais extraordinários. Justamente por isso, precisa estar submetido a um padrão de transparência extraordinário.

Não pode existir uma Justiça para o cidadão comum e outra Justiça para quem ocupa uma cadeira no mais alto tribunal do país.

A sociedade brasileira já convive com uma profunda desconfiança em relação às instituições. Pesquisa Datafolha divulgada neste fim de semana apontou que 76% dos entrevistados consideram que os ministros do STF têm poder excessivo, enquanto 77% afirmam que a confiança na Corte diminuiu ao longo do tempo. (Folha de S.Paulo⁠)

Esses números não podem ser ignorados.

Sem corporativismo

O Supremo não precisa proteger seus ministros.

Precisa proteger a instituição.

E a melhor maneira de proteger uma instituição é permitir que os fatos sejam apurados quando existirem elementos concretos para isso.

Se Moraes não praticou qualquer irregularidade, uma investigação independente poderá demonstrá-lo.

Se os elementos forem insuficientes, que o plenário assim decida, apresentando fundamentos claros.

Mas, se houver indícios que justifiquem uma apuração, o caminho institucionalmente mais seguro é investigar.

Porque o pior resultado para a democracia não é investigar um ministro inocente.

O pior resultado é deixar de investigar alguém apenas porque ele é ministro do Supremo.

É exatamente aí que reside a expectativa da sociedade.

Na terça-feira, o STF não estará apenas diante de um processo.

Estará diante do próprio espelho.

E a pergunta que milhões de brasileiros fazem é simples:

A Justiça brasileira termina onde começa a toga de um ministro ou a toga também está submetida à Justiça?

A resposta não será dada apenas pelo voto de cada integrante da Corte.

Será dada pela coragem institucional de permitir que a verdade seja procurada, doa a quem doer.

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