SETEMBRO AMARELO: ESCUTAR PODE SER O PRIMEIRO PASSO PARA SALVAR UMA VIDA

Foto: Imagem gerada por IA.

O Setembro Amarelo chega a 2026 com uma mensagem que ultrapassa os limites de uma campanha de conscientização: escutar é estar presente. Em um cenário marcado pelo crescimento dos casos de suicídio e pelas dificuldades relacionadas à saúde mental, a prevenção exige atenção permanente, diálogo aberto e uma rede de apoio capaz de identificar sinais de sofrimento antes que uma situação se transforme em emergência.

No Brasil, foram registrados 15.507 suicídios em 2021, segundo dados do Ministério da Saúde. Naquele ano, o suicídio representou a 27ª principal causa de morte no país e esteve entre as principais causas de mortalidade entre adolescentes e adultos jovens.

O quadro relacionado à saúde mental também preocupa. Dados citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 9,3% a 10% da população brasileira convive com ansiedade, o equivalente a aproximadamente 18 milhões de pessoas. A depressão também apresenta números expressivos: cerca de 12,7% da população brasileira convive com a doença, índice que coloca o Brasil entre os países de maior prevalência de depressão na América Latina.

Santa Catarina registra aumento de 25% nos suicídios

Em Santa Catarina, os números reforçam a dimensão do desafio. Dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram que os registros passaram de 769 mortes em 2020 para 962 em 2023, um crescimento de aproximadamente 25%.

Outro dado chama atenção: 76% das vítimas em 2023 eram homens.

Entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, foram registrados 41 óbitos naquele ano. Já as notificações de tentativas de suicídio envolvendo crianças e adolescentes ultrapassam 8 mil registros no Estado, segundo dados citados pelo Ministério Público.

Em 2024, as notificações estaduais de tentativas chegaram a aproximadamente 19 mil casos, evidenciando que a prevenção precisa alcançar não apenas os serviços de saúde, mas também famílias, escolas, ambientes de trabalho e toda a comunidade.

Os números do alerta

Brasil

* 15.507 suicídios registrados em 2021;
* 27ª principal causa de morte no país naquele ano;
* Cerca de 18 milhões de pessoas convivem com ansiedade;
* 12,7% da população apresenta depressão.

Santa Catarina

* +25% nos suicídios entre 2020 e 2023;
* 962 mortes registradas em 2023;
* 76% das vítimas eram homens;
* Cerca de 19 mil tentativas notificadas em 2024.

Os sinais podem aparecer antes da crise

Para o psicólogo Mateus Rodrigues, a prevenção começa muito antes de uma situação de emergência. A atenção às mudanças de comportamento, a disposição para conversar e o acolhimento são fundamentais para perceber quando alguém pode estar enfrentando sofrimento emocional.

Os sinais nem sempre são explícitos.

Isolamento repentino, afastamento de familiares e amigos, perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer e mudanças significativas na rotina estão entre os comportamentos que merecem atenção.

“Quando ocorre um isolamento ou um afastamento que foi inesperado, é muito importante que a gente procure saber o que aconteceu, o porquê daquele afastamento”, explica Rodrigues.

O psicólogo também alerta para alterações como aumento do consumo de álcool e outras substâncias, comportamentos de risco e atitudes que representem uma mudança importante em relação ao padrão habitual da pessoa.

Isso ocorre porque, muitas vezes, quem está sofrendo não consegue compreender ou expressar claramente aquilo que está sentindo.

Desesperança e sofrimento não devem ser tratados como exagero

Em situações de sofrimento mais intenso, podem surgir crises de ansiedade, episódios de choro, desesperança e manifestações relacionadas à morte ou à falta de sentido na vida.

Essas manifestações não devem ser ignoradas, banalizadas ou tratadas como exagero.

O sofrimento emocional é complexo e pode resultar de diferentes fatores. Perdas, conflitos familiares, dificuldades pessoais, problemas financeiros, mudanças importantes e outras situações adversas podem contribuir para o agravamento de um quadro.

A resposta, entretanto, varia de pessoa para pessoa. Por isso, também precisam ser considerados os vínculos sociais, as condições de vida e a existência — ou ausência — de uma rede de apoio.

Prevenção é responsabilidade de toda a sociedade

Para Rodrigues, não é possível colocar exclusivamente sobre quem sofre a responsabilidade de enfrentar uma situação de crise.

Família, amigos, escolas, ambientes de trabalho, comunidade e poder público têm participação fundamental na construção de espaços de escuta e acolhimento.

“Manter diálogo aberto, ter essa possibilidade de com quem conversar, ter pessoas de referência nesses locais é fundamental”, afirma.

Na escola, por exemplo, estudantes precisam saber a quem recorrer quando enfrentam dificuldades. No ambiente profissional, relações mais humanas e atentas às condições de vida dos trabalhadores também podem contribuir para a identificação precoce de situações de sofrimento.

O psicólogo chama atenção ainda para a redução dos vínculos presenciais em uma sociedade cada vez mais conectada por celulares, computadores e redes sociais.

Nesse contexto, olhar, ouvir e perceber o outro também são formas de prevenção.

Alesc transformou prevenção em política permanente

Em Santa Catarina, o Setembro Amarelo também está respaldado por uma série de iniciativas legislativas.

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) teve papel pioneiro na institucionalização da campanha. Em 2018, foi sancionada a Lei nº 17.558, que instituiu no Estado o Setembro Amarelo, o Dia Estadual de Prevenção ao Suicídio, celebrado em 10 de setembro, e a Caminhada Anual pela Vida.

Posteriormente, essas disposições foram consolidadas pela Lei nº 18.531/2022, incorporando as datas ao calendário oficial do Estado.

A legislação prevê ações que vão além da conscientização, incluindo palestras, seminários, capacitação de profissionais de saúde, divulgação de informações, criação de canais de atendimento, monitoramento de casos e fortalecimento do debate sobre as causas relacionadas ao suicídio.

Saúde mental também está na agenda do Parlamento

A atuação legislativa catarinense também alcança a discussão mais ampla sobre saúde mental.

Desde 2017, Santa Catarina possui legislação que institui a Semana Estadual da Saúde Mental, com o objetivo de estimular o debate, aproximar sociedade civil e poder público e promover atendimento humanizado às pessoas em sofrimento mental. Em 2025, uma nova legislação ampliou os objetivos da iniciativa.

A Assembleia também desenvolve ações voltadas ao próprio ambiente institucional. Em 2025, por exemplo, promoveu a campanha “O que me faz bem”, destinada aos servidores, com foco na saúde mental e na valorização da vida.

O conjunto dessas iniciativas reforça que o enfrentamento do suicídio precisa envolver legislação, políticas públicas, serviços de saúde e participação social.

Rede pública também sente o impacto

A dimensão do problema aparece ainda nos atendimentos de emergência.

Em 2024, até o final de agosto, o SAMU/SC registrou 2.645 chamadas relacionadas a tentativas de suicídio, com envio de equipes em 1.840 ocorrências.

Entre os atendimentos realizados por unidades de suporte avançado, 276 envolviam pessoas entre 20 e 39 anos.

A Secretaria de Estado da Saúde mantém o tema entre as prioridades de vigilância e prevenção. O relatório estadual de 2024 registrou uma taxa de mortalidade por suicídio de 14,43 por 100 mil habitantes.

Os números deixam uma mensagem clara: a prevenção não pode ficar restrita ao mês de setembro.

Pedir ajuda também é uma forma de cuidado

Para Mateus Rodrigues, não é preciso esperar que o sofrimento se torne insuportável para procurar ajuda profissional.

Mudanças persistentes de comportamento, perda de motivação ou prazer, isolamento, conflitos recorrentes, uso abusivo de substâncias e episódios de automutilação são situações que merecem atenção e podem indicar a necessidade de avaliação profissional.

O acompanhamento pode envolver psicoterapia e, quando indicado, avaliação psiquiátrica. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) também disponibiliza atendimento por meio de serviços como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde.

Em situações de emergência ou risco imediato, é fundamental procurar um serviço de urgência ou acionar o atendimento de emergência.

Ouvir sem julgar é fundamental

A maneira como familiares e amigos reagem diante do sofrimento também pode fazer diferença.

Ouvir sem julgamentos, demonstrar preocupação e oferecer companhia são atitudes importantes. Frases que minimizam a dor podem aumentar a sensação de incompreensão e isolamento.

Também não ajuda responsabilizar ou culpar quem está sofrendo.

“O primeiro de tudo é trazer acolhimento, trazer escuta”, afirma Rodrigues.

A conversa pode começar de maneira simples: demonstrando que uma mudança foi percebida e deixando claro que existe disponibilidade para ouvir.

Quando o sofrimento é intenso, persistente ou envolve risco imediato, entretanto, a ajuda profissional e os serviços de saúde devem ser procurados sem demora.

Uma campanha para 30 dias e uma responsabilidade para o ano inteiro

O Setembro Amarelo amplia durante o mês uma discussão que precisa permanecer durante os 12 meses do ano.

Saúde mental não deve ser uma preocupação restrita a quem recebeu um diagnóstico ou está em tratamento. Perdas, conflitos, mudanças e situações adversas podem afetar qualquer pessoa.

O fortalecimento dos vínculos sociais, a prática de atividades físicas, o esporte e as manifestações artísticas podem contribuir para o bem-estar emocional, especialmente quando associados a uma rede de apoio e, quando necessário, ao acompanhamento profissional.

Para Rodrigues, prestar atenção ao outro é uma responsabilidade que começa nas relações mais próximas.

“É muito fundamental todo mundo prestar atenção na saúde mental porque pode acontecer com qualquer pessoa”, resume.

Mais do que uma campanha anual, o Setembro Amarelo representa um convite à sociedade para falar, ouvir, acolher, fortalecer vínculos e compreender que pedir ajuda é um ato de cuidado.

“Escutar é estar presente”

O mote do Setembro Amarelo 2026 é “Escutar é estar presente”, com foco na escuta acolhedora e na valorização da vida.

O movimento nacional de prevenção ao suicídio é promovido pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).

O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio é celebrado em 10 de setembro, data dedicada à ampliação do diálogo e à redução do estigma relacionado à saúde mental.

ONDE BUSCAR AJUDA

CVV – Centro de Valorização da Vida
Atendimento gratuito, sigiloso e anônimo, 24 horas por dia.

Telefone: 188

A rede pública de saúde também oferece atendimento por meio das Unidades Básicas de Saúde, CAPS e demais serviços da Rede de Atenção Psicossocial.

Em situação de emergência, procure imediatamente um serviço de urgência ou acione o serviço de emergência.

LEGISLAÇÃO — SANTA CATARINA

Lei nº 17.558/2018 — Setembro Amarelo
Instituiu oficialmente em Santa Catarina a campanha Setembro Amarelo, o Dia Estadual de Prevenção ao Suicídio, em 10 de setembro, e a Caminhada Anual pela Vida.

Lei nº 18.531/2022 — Calendário Oficial do Estado
Consolidou as datas no calendário oficial unificado de Santa Catarina.

Lei nº 17.330/2017 — Janeiro Branco
Instituiu em Santa Catarina a campanha Janeiro Branco, voltada à conscientização e promoção da saúde mental.

LEGISLAÇÃO — BRASIL

Lei nº 13.819/2019 — Política Nacional de Prevenção
Institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio e estabelece diretrizes para prevenção, tratamento, notificação e articulação entre diferentes setores.

Lei nº 10.216/2001 — Reforma Psiquiátrica
Redireciona o modelo de assistência em saúde mental, priorizando o atendimento comunitário e a proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais.

Lei nº 13.935/2019 — Psicologia nas Escolas
Prevê serviços de psicologia e serviço social nas redes públicas de educação básica, fortalecendo ações de prevenção e atenção às situações de sofrimento emocional no ambiente escolar.

ALESC EXPLICA

Quais mudanças de comportamento podem merecer atenção?

A reportagem aponta situações como isolamento repentino, afastamento de familiares e amigos, perda de interesse por atividades, mudanças significativas na rotina, aumento do uso de álcool e outras substâncias e comportamentos de risco.

Como familiares e amigos podem ajudar?

Segundo o psicólogo ouvido pela reportagem, diálogo, escuta sem julgamentos, acolhimento e disponibilidade para estar presente são importantes. Minimizar ou culpabilizar a pessoa pode aumentar a sensação de incompreensão.

Onde procurar atendimento?

A reportagem cita a Rede de Atenção Psicossocial, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as Unidades Básicas de Saúde e, em situações de emergência, os serviços de urgência. Também informa que o CVV oferece atendimento gratuito, sigiloso e anônimo pelo telefone 188.

O Setembro Amarelo faz parte da legislação catarinense?

Sim. A reportagem informa que a Lei 17.558/2018 instituiu em Santa Catarina o Setembro Amarelo, o Dia Estadual de Prevenção ao Suicídio e a Caminhada Anual pela Vida, posteriormente consolidados pela Lei 18.531/2022.

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