
O silêncio tomou conta do auditório Antonieta de Barros, na sede da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), na manhã desta quinta-feira (6). Apenas uma música lenta preenchia o ambiente enquanto, no telão, nomes começavam a surgir um a um.
Mayara, 31 anos.
Paola, 19 anos.
Zenir, 54 anos.
Maria, 14 anos.
Marta, 42 anos.
Nome após nome, mulheres de diferentes idades e regiões de Santa Catarina que tiveram suas vidas interrompidas pela violência. Histórias que não chegaram ao fim que mereciam.
Enquanto os nomes eram projetados, homens começaram a entrar lentamente no auditório, um a um, em silêncio. Cada um carregava nas mãos um par de sapatos vermelhos, símbolo internacional da ausência das mulheres assassinadas.
Ao todo, 52 homens atravessaram o espaço segurando os sapatos. À frente, uma faixa com uma frase direta e contundente: “A culpa não foi delas.”
Foi dessa forma simbólica e impactante que teve início o seminário “Vivas e Decididas – Contra o Feminicídio”, promovido pela Procuradoria da Mulher da Alesc. O evento reuniu cerca de mil pessoas, entre representantes de diferentes poderes, instituições públicas, movimentos sociais, universidades e organizações da sociedade civil.
Mais do que um debate, o encontro se propôs a ser um chamado coletivo à ação diante da escalada da violência contra mulheres.
Violência que começa antes do crime
Na abertura do seminário, o presidente da Alesc, deputado Julio Garcia, destacou que o feminicídio não surge de forma repentina. Segundo ele, é o desfecho de um ciclo de violência que começa muito antes do assassinato.
“Em Santa Catarina tivemos 52 feminicídios no ano passado. Mas há um dado ainda mais alarmante: mais de 30 mil pedidos de medidas protetivas. Isso mostra que o feminicídio não começa no momento do crime. Ele começa com a agressão verbal, com o controle, com a invasão da privacidade. Vai crescendo até chegar à violência extrema”, afirmou.
Para o presidente do Legislativo catarinense, enfrentar esse problema exige responsabilidade coletiva.
“Cada um de nós precisa fazer a sua parte, dentro de casa, educando os filhos para o respeito, e também nos ambientes de trabalho e nas instituições.”
Uma emergência pública
Os dados apresentados durante o seminário escancaram a dimensão da violência contra mulheres em Santa Catarina.
Somente em 2025, o estado registrou 52 feminicídios, incluindo casos que vitimaram também três crianças.
No mesmo período foram contabilizadas 255 tentativas de feminicídio, o segundo maior número do país. Além disso, mais de 31 mil mulheres solicitaram medidas protetivas contra companheiros ou ex-companheiros.
Para a procuradora da Mulher da Alesc, deputada Luciane Carminatti, idealizadora do seminário, os números revelam uma realidade que não pode mais ser tratada como rotina.
“Todos nós conhecemos esses números. Eles estão nos jornais, nas redes sociais, na televisão. Nós lamentamos, nos chocamos, mas a vida continua. E é justamente isso que precisa mudar: nós não podemos naturalizar esses dados”, afirmou.
Segundo ela, o seminário nasce de uma decisão coletiva de romper com essa normalização da violência.
“Esse encontro não aconteceu por acaso. Foi uma decisão: nós não aceitamos mais. Cada pessoa precisa se perguntar qual atitude está tomando no seu espaço — no trabalho, na escola, na política e dentro de casa.”
Luciane também defendeu mudanças concretas nas políticas públicas, como delegacias funcionando em horários adequados para o atendimento às vítimas e programas educativos nas escolas.
“Não basta discurso. É preciso atitude.”
Para o presidente do Tribunal de Contas de Santa Catarina, Herneus de Nadal, o enfrentamento da violência exige também fiscalização e monitoramento das políticas públicas. Desde 2017, segundo ele, o Tribunal realiza auditorias operacionais para acompanhar a aplicação de recursos destinados à prevenção da violência contra as mulheres.
“Este é um momento importante para refletir, mas também para agir. Combater a violência física e psicológica contra mulheres, mães e famílias exige consciência e responsabilidade de toda a sociedade, mas também dos espaços institucionais que ocupamos”, afirmou.
A importância de agir antes da tragédia
A procuradora-geral de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina, Vanessa Cavalazzi, destacou que combater o feminicídio exige compreender melhor a realidade da violência no estado e agir antes que os crimes aconteçam.
Segundo ela, o Ministério Público iniciou um diagnóstico aprofundado sobre a violência contra a mulher em Santa Catarina, ouvindo promotores de justiça em todas as regiões do estado.
“Percorremos todas as regiões para ouvir quem está na linha de frente. O primeiro passo foi identificar prioridades e o segundo foi construir um diagnóstico mais completo. Não basta olhar apenas os números. Precisamos entender quem são essas mulheres e como evitar que essas mortes aconteçam.”
O levantamento, ainda em fase final, indica que a violência tende a ser mais intensa em regiões com menor presença de políticas públicas e estruturas de acolhimento.
Entre as ações previstas estão o fortalecimento de iniciativas educativas nas escolas e a ampliação de programas de prevenção.
Educação e prevenção como caminhos
Representando o Tribunal de Justiça, a vice-presidente do Fórum Nacional de Violência Doméstica, Naiara Brancher, afirmou que o grande desafio é agir antes que a violência resulte em morte.
Ela destacou iniciativas desenvolvidas em Santa Catarina, como os grupos reflexivos para homens autores de violência, considerados experiências pioneiras no país e realizados em parceria com universidades.
“Não se trata apenas de aumentar penas. As penas já são altas. O desafio é chegar antes do feminicídio”, disse.
Segundo ela, ampliar o acesso às medidas protetivas e investir em educação são estratégias fundamentais para reduzir a violência.
“É preciso que cada vez mais mulheres reconheçam a situação de violência e saibam que têm instrumentos de proteção.”
Uma responsabilidade de toda a sociedade
A secretária de Estado da Assistência Social, Mulher e Família, Adeliana Dal Pont, ressaltou que enfrentar a violência contra a mulher exige ação integrada entre diferentes setores.
“Não é tarefa de uma secretaria, nem de um único poder. É uma causa de toda a sociedade. Esses números não são apenas estatísticas. Eles revelam uma cultura de violência construída ao longo de muitos anos e que precisa ser enfrentada com coragem e ação concreta.”
Compromisso institucional pela vida das mulheres
Um dos momentos centrais do seminário foi a assinatura de um Termo de Compromisso entre os Poderes pela Vida das Mulheres em Santa Catarina.
O documento estabelece oito compromissos institucionais, entre eles:
- atuação integrada entre os poderes;
- prioridade na prevenção da violência;
- produção e compartilhamento de dados para orientar políticas públicas;
- atenção especial às desigualdades que atingem mulheres pobres, periféricas, negras, com deficiência e de diferentes territórios.
As instituições participantes assumiram ainda um prazo: em dez meses deverão apresentar resultados concretos sobre as ações firmadas.
Homens também na linha de frente contra a violência
O ato simbólico que marcou a abertura do evento também trouxe uma mensagem importante: o enfrentamento ao feminicídio precisa envolver toda a sociedade, inclusive os homens.
Entre os parlamentares que participaram da homenagem carregando sapatos vermelhos estavam os deputados Marquito, Fabiano da Luz, Neodi Saretta, Padre Pedro Baldissera e Mário Motta.
O gesto silencioso, diante de um auditório lotado, em sua maioria por mulheres, reforçou a mensagem central do seminário: o feminicídio não é inevitável. É um crime previsível, e portanto, evitável.
Perguntas Frequentes
1) O que foi o seminário “Vivas e Decididas – Contra o Feminicídio”?
Foi um evento promovido pela Procuradoria da Mulher da Alesc para discutir a responsabilidade coletiva e institucional no enfrentamento à violência contra as mulheres em Santa Catarina.
2) Quais dados sobre feminicídio em Santa Catarina foram apresentados?
Em 2025, o estado registrou 52 feminicídios e 255 tentativas, além de mais de 31 mil pedidos de medidas protetivas.
3) O que prevê o Termo de Compromisso assinado entre os Poderes?
O documento estabelece oito compromissos para atuação integrada, prioridade na prevenção e compartilhamento de dados, com a obrigação de apresentar resultados concretos em dez meses.













