EPAGRI APOSTA EM AGRICULTURA DIGITAL E BIOINSUMOS PARA ENFRENTAR CLIMA EXTREMO E REDUZIR CUSTOS NO CAMPO

Produtor Eduardo Scapinelli monitora os índices de frio disponibilizados pela Epagri Ciram para saber a hora de quebrar a dormência nas macieiras. (Foto: Eduardo Scapinelli)

Em meio aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pelo aumento dos custos de produção e pela exigência crescente por sustentabilidade, a Epagri consolida cinco décadas de pesquisa com um olhar voltado para o futuro da agropecuária catarinense. A aposta está na expansão da agricultura digital e no avanço da biotecnologia como ferramentas estratégicas para garantir produtividade, competitividade e menor impacto ambiental no campo.

“O plano estratégico da Epagri se volta para um futuro que exigirá cada vez mais da pesquisa agropecuária a entrega de soluções práticas para o campo. O mercado agropecuário precisa aumentar a produtividade com o menor custo e impacto ambiental possível e a agricultura 4.0 e a biotecnologia são essenciais para alcançar esses resultados”, afirma Reney.

Dados em tempo real fortalecem a tomada de decisão no campo

A agricultura digital já é uma realidade em Santa Catarina. A Epagri disponibiliza uma ampla base de dados que auxilia o produtor rural a planejar plantios, manejar irrigação e definir o melhor momento para colheitas. Uma das principais ferramentas é o Agroconnect, sistema que reúne informações sobre clima, solo, recursos hídricos e alertas fitossanitários.

Os dados são coletados em tempo real por uma rede com mais de 300 estações meteorológicas espalhadas pelo estado.

A pesquisadora Cristina Pandolfo, gerente do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Epagri/Ciram), explica que o monitoramento em tempo real permite que produtores ajustem plantios, irrigação e colheitas de acordo com condições climáticas e hídricas. Essas variáveis se tornam ainda mais importantes num cenário de instabilidade climática.

“Recentemente, o agronegócio catarinense teve perdas em decorrência de eventos extremos como chuvas fortes, granizo, vendavais e geadas. O impacto dessa instabilidade climática é direto na renda familiar e na segurança alimentar local. Por isso, o acesso à agricultura digital, com informações meteorológicas, se torna ainda mais importante”, destaca Cristina.

Monitoramento do frio garante produtividade na fruticultura

Entre os dados disponíveis no Agroconnect está o monitoramento do frio, essencial para culturas de clima temperado, como a maçã. O acúmulo de horas de frio define o momento adequado da quebra química da dormência das plantas, etapa decisiva para garantir produtividade e qualidade dos frutos.

O produtor de maçã Eduardo Scapinelli, de Caçador, utiliza o sistema há quase dez anos.

“A partir de junho começamos a acompanhar diariamente os índices de frio da Epagri. Com base nesses dados, decidimos o momento e a dosagem da quebra de dormência”, explica.

Além de aumentar a precisão técnica, a prática reduz custos. “Se o inverno é mais rigoroso, conseguimos diminuir a dose do produto, que é um dos mais caros da cultura”, relata Eduardo, que colhe cerca de 120 toneladas de maçã por ano.

Desafio é levar a agricultura 4.0 aos pequenos produtores

Embora consolidada em grandes empresas do agronegócio, com uso de sensores, drones, robôs e sistemas automatizados, a agricultura 4.0 ainda enfrenta o desafio da democratização do acesso.

Segundo Cristina Pandolfo, o foco da Epagri é transformar grandes volumes de dados em informações simples e úteis.

“Estamos aprimorando as plataformas para que o agricultor consiga se apropriar desses dados e melhorar a gestão da propriedade”, afirma.

Bioinsumos: crescimento acelerado e foco em sustentabilidade

Outro eixo estratégico da pesquisa agropecuária é a biotecnologia, especialmente os bioinsumos. No Brasil, o mercado desses produtos cresceu, em média, 22% ao ano nos últimos três anos, segundo a Blink/CropLife Brasil. Atualmente, 49% dos agricultores brasileiros já utilizam algum tipo de bioinsumo — o maior índice mundial, conforme o Ministério da Agricultura.

Para o pesquisador Leandro Ribeiro, do Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar (Epagri/Cepaf), os bioinsumos já são indispensáveis.

“Eles não são o futuro, são o presente. Sem a inoculação da soja com bactérias fixadoras de nitrogênio, por exemplo, a cultura não seria viável econômica e ambientalmente”, explica.

Além de reduzir o uso de fertilizantes sintéticos, os bioinsumos contribuem para o manejo integrado de pragas, diminuem resíduos de agrotóxicos e atendem à demanda da sociedade por alimentos mais sustentáveis.

Pesquisa catarinense cria banco de fungos para controle biológico

Na Epagri, as pesquisas em bioinsumos ainda estão em fase de consolidação, mas já apresentam resultados promissores. Um estudo coordenado por Leandro Ribeiro isolou fungos entomopatogênicos nativos de Santa Catarina, formando um banco de isolados para uso no manejo de pragas em pastagens.

“Identificamos isolados multifuncionais, com ação biopesticida, promotora de crescimento e indutora de resistência. Alguns já despertaram interesse da iniciativa privada”, adianta o pesquisador.

Produtores validam resultados no campo

O uso prático dos bioinsumos tem aprovação crescente entre agricultores. Em Guatambu, no Oeste catarinense, o produtor rural e engenheiro agrônomo Leonardo Zeni utiliza a tecnologia desde 2020.

“Testamos os bioinsumos em parte da lavoura e, na colheita, os resultados foram melhores. A partir daí, passamos a usar em toda a área”, relata.

Segundo ele, os produtos biológicos não substituem totalmente os químicos, mas potencializam o manejo. “Associados, eles aumentam a produtividade e a eficiência”, avalia.

Pesquisa pública como motor do desenvolvimento sustentável

O presidente da Epagri, Dirceu Leite, reforça que as tecnologias desenvolvidas pela Epagri têm como finalidade melhorar a vida das pessoas e fortalecer a produção sustentável de alimentos, como foi relatado pelos agricultores  Leonardo e Eduardo.

“A pesquisa pública tem esse papel de olhar para o futuro, antecipar desafios e entregar soluções que muitas vezes não nasceriam apenas da lógica de mercado. Investir em ciência, tecnologia e inovação na Epagri é investir em segurança alimentar, em renda no campo e em um modelo de desenvolvimento mais justo e resiliente para Santa Catarina e para o Brasil”.

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