Maria (nome fictício) viveu momentos de terror dentro da própria casa. Mãe de duas crianças pequenas, de apenas 3 e 4 anos, ela foi vítima de uma tentativa de feminicídio cometida pelo então companheiro, recém-saído da prisão.
A discussão começou por uma suspeita de traição. Em poucos minutos, evoluiu para agressões físicas e, em seguida, para um ato extremo: o homem lançou um líquido inflamável sobre a vítima e ateou fogo em seu corpo.
Sobrevivência e marcas profundas
Mesmo gravemente ferida, Maria sobreviveu. Ela sofreu queimaduras de segundo grau em cerca de 25% do corpo e só escapou com vida graças ao atendimento rápido do Corpo de Bombeiros.
Após dias internada em um hospital da região, precisou ser transferida para uma unidade especializada em tratamento de queimados.
O trauma, no entanto, foi além das lesões físicas — o crime aconteceu diante dos filhos do casal.
Silêncio, medo e tentativa de proteção
Durante a investigação, um elemento comum em casos de violência doméstica chamou a atenção: a tentativa da vítima de proteger o agressor.
Ainda hospitalizada, Maria negou os fatos e apresentou versões que não se sustentaram:
- disse que sofreu um acidente doméstico;
- depois afirmou que teria provocado o incêndio em si mesma.
As provas técnicas e os depoimentos desmontaram as versões. A perícia descartou explosão do fogão e testemunhas relataram histórico de brigas.
Um dos filhos, ao ver a polícia, resumiu a cena em uma frase que pesou no processo: “Papai queimou a mamãe.”
Condenação e reconhecimento do contexto
O caso, ocorrido em 2012, teve desfecho no Tribunal do Júri após atuação do Ministério Público de Santa Catarina.
Os jurados reconheceram:
- motivo torpe
- uso de fogo
- contexto de violência doméstica
pena foi fixada em 14 anos, 2 meses e 20 dias de reclusão em regime fechado.
Segundo o promotor responsável, o comportamento da vítima foi interpretado dentro do ciclo de violência: medo, dependência emocional e tentativa de proteção do agressor.
Violência doméstica: um ciclo silencioso
O caso reforça um padrão recorrente: vítimas que, mesmo diante de crimes graves, hesitam em denunciar ou chegam a proteger seus agressores.
Especialistas apontam que esse comportamento está ligado a fatores como:
- medo de represálias
- dependência financeira ou emocional
- presença de filhos
- histórico prolongado de abusos
Casos como este evidenciam a importância de denúncia e acompanhamento das vítimas. A violência doméstica, muitas vezes invisível, pode evoluir para episódios extremos.
Denuncie!
Se você testemunhou ou foi vítima de violência doméstica, busque ajuda ou denuncie:
- Polícia Militar: disque 190;
- Central de Atendimento à Mulher: disque 180;
- Delegacia da Mulher (DPCAMIs) e boletim de ocorrência on-line: 181 ou https://denuncias.pc.sc.gov.br/#/;
- Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT): conheça os locais e horários em https://www.mpsc.mp.br/neavit#item5;
- Ouvidoria do MPSC: (48) 3229-9306.














