ELEIÇÕES 2026:VOZES ORIGINÁRIAS GANHAM FORÇA NAS URNAS E BUSCAM “ALDEAR” O CONGRESSO NACIONAL

Lideranças e eleitores indígenas ampliam presença nas urnas e fortalecem a luta por representatividade política no Brasil. =Foto: Luiz Roberto/Secom/TSE=

O Brasil presencia um movimento histórico de fortalecimento democrático protagonizado pelos povos originários. Mais presentes no cadastro eleitoral, mais organizados politicamente e cada vez mais conscientes do peso do voto, indígenas de diferentes territórios ampliam sua participação nas urnas e passam a disputar espaços estratégicos de poder, com o objetivo de levar suas próprias vozes para onde, por décadas, outros falaram por eles.

“Sempre falaram pelos povos indígenas. Agora, sabendo quem são os nossos candidatos, nós finalmente temos a chance de pôr os nossos representantes lá [em Brasília] e ‘aldear’ o Congresso [Nacional]”.

A afirmação do cacique Fabio Pataxó, de 47 anos, morador da Terra Indígena Coroa Vermelha, em Porto Seguro (BA), resume a dimensão política e simbólica desse novo momento vivido no país.

Crescimento expressivo no eleitorado indígena

Entre março de 2024 e março de 2026, o número de eleitores que se autodeclaram indígenas passou de 102.436 para 253.270 — um crescimento de 68%. O avanço revela não apenas maior engajamento eleitoral, mas também o fortalecimento da identidade étnica e a ampliação do acesso ao cadastro eleitoral.

No recorte por gênero, as mulheres são maioria entre o eleitorado autodeclarado indígena: 132.241 eleitoras (52%) contra 121.029 homens.

Esse crescimento reflete também ações institucionais promovidas pela Justiça Eleitoral e a mobilização das próprias comunidades, que enxergam no voto uma ferramenta concreta de transformação social.

Representação além da floresta

Para Fabio Pataxó, a pauta indígena vai muito além da preservação ambiental. Ela envolve dignidade, direitos básicos e superação de estereótipos históricos.

“Nós somos os donos da terra. Onde tem um indígena tem meio ambiente.”

“Só nós sabemos das nossas necessidades, do que a gente precisa, e não devemos ser tratados como indígenas arcaicos que moram em uma tapera ou andam descalços”.

A autodeclaração também ganhou impulso com a Resolução nº 23.659/2021, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que criou campos específicos para identificação de etnia e língua no cadastro eleitoral, permitindo um retrato mais preciso dessa população.

Para Amini Kuikuro, de 40 anos, esse reconhecimento oficial fortalece a diversidade entre os povos originários:

“É importante pela representatividade étnica do meu povo”.

Mais candidaturas, mais presença política

O avanço também aparece nas disputas eleitorais. Entre 2018 e 2024, o número de candidaturas indígenas saltou de 133 para 2.656.

Os maiores crescimentos ocorreram nas eleições municipais, tradicionalmente mais ligadas às demandas locais:

* 2020: 2.223 candidaturas indígenas
* 2024: 2.656 candidaturas indígenas

Já o número de eleitos acompanhou essa evolução: passou de 202 em 2020 para 261 em 2024.

Nas eleições gerais, a representatividade ainda avança em ritmo inicial, mas consistente: foram apenas dois indígenas eleitos em 2018 e dez em 2022.

Juventude indígena aposta no voto

Entre os novos protagonistas desse cenário estão os jovens eleitores indígenas, que associam participação política à defesa de territórios, cultura e futuro.

“Eles [candidatos indígenas] apoiam a nossa causa e reconhecem o que a gente passa”, afirma Sipsedy Xakriabá, de 20 anos, da Terra Indígena Xakriabá, em São João das Missões (MG), que votará pela segunda vez em 2026.

Xohã Pataxó, de 21 anos, também vê no voto um instrumento de luta coletiva:

“São muitos povos indígenas. São lutas diferentes, mas com o mesmo propósito. Por isso, a gente apoia os candidatos indígenas: para que eles nos representem lá dentro do Plenário da Câmara e para que apoiem a gente nas lutas também”.

Mulheres indígenas reivindicam espaço

A ascensão política indígena também passa pelo protagonismo feminino. Lideranças destacam que a presença de mulheres nos espaços públicos fortalece pautas sociais urgentes e amplia o acolhimento a outras mulheres.

Tamikuã Pataxó, de 29 anos, defende essa presença:

“Não que o homem não saiba a nossa dor, mas uma mulher sabe, de fato, o que outra mulher necessita desde criança.”

“Nós precisamos de saúde, de atendimento médico, psicólogo. Somos agredidas verbalmente dentro de casa ou quando vamos ao trabalho. Então, a mulher se sente acolhida quando há outras mulheres buscando por ela”.

Mirian Terena, de 58 anos, reforça:

“É necessário que as mulheres participem da vida pública, que sejam corajosas, aguerridas para enfrentar todo o processo de discriminação e preconceito que existe contra nós, mulheres indígenas”.

Democracia chega às aldeias

Desde 2021, a Justiça Eleitoral vem expandindo ações para garantir a participação indígena. O trabalho inclui seções eleitorais em territórios, materiais educativos bilíngues e estruturas adaptadas às realidades locais.

Hoje, o Brasil conta com:

* 1.181 seções eleitorais instaladas diretamente em 243 territórios indígenas
* Cobertura em 37% das 644 áreas identificadas pela Funai
* 44.192 seções eleitorais no país com ao menos um eleitor autodeclarado indígena

Entre os territórios com maior concentração de eleitores estão:

* Fulni-ô (PE): 23.094 eleitores em 82 seções
* Raposa Serra do Sol (RR): 11.749 eleitores em 56 seções

No Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, a seção eleitoral funciona na escola central da Terra Indígena Ipatse Kuikuro, a 150 quilômetros do município mais próximo, Gaúcha do Norte.

“Facilita muito porque todo mundo vota ali mesmo, na aldeia, sem precisar se deslocar até a cidade”, explica Amini Kuikuro.

Um novo capítulo da democracia brasileira

Com eleitorado jovem, maior presença feminina, crescimento nas candidaturas e fortalecimento da identidade política, os povos indígenas escrevem um novo capítulo da democracia brasileira.

Mais do que ocupar cadeiras, o movimento busca ocupar narrativas, corrigir invisibilidades históricas e garantir que decisões sobre seus territórios, culturas e direitos sejam tomadas com participação direta de quem sempre esteve na origem desta terra.

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